Poéticas da Desmemória

Por Sílvio Feitosa
A exposição Poéticas da Desmemória, em cartaz na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa, propõe uma ruptura com o pensamento linear na observação dos espaços de convivência e da fisionomia urbana, lançando um olhar crítico sobre o patrimônio histórico, arquitetônico e cultural. A degradação provocada pela especulação imobiliária torna-se, nesse contexto, pano de fundo para formas de expressão consideradas "marginais", que demarcam territórios e ecoam os gritos daqueles que vivem à margem dos processos de transformação da cidade.
A obra Duas Cidades, do artista Diego Rezende, aborda o apagamento da fisionomia urbana, progressivamente ocupada por construções contemporâneas desprovidas de vida e história. A paisagem resultante parece conduzir a uma padronização apática da identidade e da personalidade da cidade.
A obra É no muro que habito, de Artemysia Arruda, questiona as políticas de preservação do patrimônio ao apresentar esculturas de fachadas históricas abandonadas, produzidas com materiais reciclados e tomadas por pichações e publicidade panfletária. Entre denúncias, anúncios de compra e venda e marcas de ocupação territorial, os muros tornam-se espaços de disputa, comunicação e resistência.

Kal Yoga lança ao público questionamentos por meio de frases de caráter filosófico, que traduzem inquietações profundamente humanas. Suas palavras, ao mesmo tempo que respondem, também gritam e indagam sobre a própria sobrevivência. Fragmentos de desconstruções insistem em transformar o cotidiano em matéria de criação artística. A água, representada pelo azul, surge como elemento de reconexão e dá forma às cicatrizes de feridas e rupturas. Em suas cianotipias, o artista constrói uma espécie de crônica da vida em meio aos monturos urbanos.
Maycon Albuquerque vai diretamente à ferida ao apresentar imagens de edifícios históricos em ruínas, como bandeiras de denúncia diante dos processos de preservação do patrimônio de uma cidade com mais de 480 anos de história. Suas imagens provocam uma reflexão sobre aquilo que se perde, sobre o que permanece e sobre a responsabilidade coletiva diante da memória construída ao longo do tempo.
Já Aidynê Martins interliga cenas cotidianas de uma cidade em desconstrução, buscando estabelecer uma compreensão possível das memórias que resistem, ainda que precariamente preservadas. Seu trabalho parece percorrer os vestígios de uma paisagem urbana fragmentada, na tentativa de reconstruir sentidos a partir daquilo que o tempo e as transformações da cidade insistem em apagar.
Poéticas da Desmemória é uma exposição que convida o visitante a olhar para a cidade para além de sua aparência imediata. As obras reunidas estabelecem diálogos entre memória e esquecimento, preservação e abandono, construção e destruição, revelando diferentes maneiras de perceber as marcas deixadas pelo tempo e pelas transformações urbanas.
Com curadoria da artista Maria Botelho, a exposição integra o projeto Lab Ocupação Artes Visuais, da Usina Cultural Energisa.
Sílvio Feitosa





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