Reencantamento
- Sílvio Feitosa

- 21 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de dez. de 2025

O Espaço Cultural José Lins do Rego apresenta a exposição Reencantamento, com curadoria de Lucas Dilacerda, reunindo obras dos artistas Aídyne Martins, Felipe Tomaz de Morais, Inara Marchi, Kal Yoga e Luiza Ribeiro, tendo Alice Vinagre como artista convidada. A mostra permanece aberta ao público até 29 de dezembro de 2025.
A exposição propõe uma reflexão crítica sobre o desencantamento do homem em relação aos seus recursos naturais, patrimoniais e históricos — elementos essenciais à vitalidade e à sustentação da vida social. A recorrente paleta azul atua como estratégia sensorial, conduzindo o visitante a uma imersão simbólica em um grande útero primordial, gerador da vida.

Na obra Rios Que Levam (2025), de Luiza Ribeiro, somos colocados diante de uma trama emaranhada que remete a uma teia nervosa de neurônios em expansão. Tentáculos simbólicos alimentam e irrigam o espaço vital, sugerindo fluxos de energia e memória. Segundo a artista, a obra representa ruas e rios da cidade de João Pessoa, partindo da observação dos corpos d’água urbanos e das diversas formas de poluição que os atravessam.

Kal Yoga cria uma instalação em que pingentes contendo água engarrafada parecem suspensos no ar, como uma chuva interrompida no tempo. A sensação é a de estar sob uma precipitação artificial e contida. A obra Embalando Nuvens (1983) alude à mercantilização da água, denunciando que esse recurso vital não é acessível a todos, mas convertido em produto para quem pode pagar. Segundo a artista, o trabalho parte de um olhar decolonial sobre a água, entendida não apenas como recurso natural, mas como entidade mítica e arquivo de memória, portadora das histórias de corpos, territórios e ancestralidades.

Um grande painel azul sustenta a obra de Alice Vinagre, Dois Vulcões I (2018). A paisagem em azul profundo retrata montes em erupção, expelindo massas escuras que convulsionam toda a cena, criando uma atmosfera de liberação e força contida. Em seguida, a artista apresenta Noite Escura (2018), uma paisagem noturna que revela mistérios e personagens fundidos ao ambiente, rica em ações e camadas simbólicas. Alice Vinagre dialoga com a liberdade expressiva da chamada Geração 80, movimento responsável por recolocar a pintura no centro da arte contemporânea brasileira.

A artista Inara Marchi apresenta a instalação Pirossomos (2025), uma grande estrutura tubular tecida em múltiplos tons de azul. À primeira vista, a obra se assemelha a uma traqueia monumental, prestes a absorver toda a água do universo. As tramas criam a sensação de camadas temporais, evocando processos geológicos como soterramentos tectônicos e metamorfismos. Inspirada nos pirossomos reais — organismos marinhos coloniais, frágeis e bioluminescentes —, a obra reflete sobre os impactos do aquecimento global nos oceanos e a consequente ameaça à vida marinha.

Na Série Patrimônio Vernacular (2025), Felipe Tomaz de Morais chama a atenção para o estado de degradação da arquitetura histórica urbana. As obras evocam antigos casarios que deram origem à vida urbana das cidades brasileiras. Mesmo protegidos por tombamento histórico, esses imóveis frequentemente sofrem com o abandono de proprietários e do poder público, sendo deixados à ação do tempo e do vandalismo, até seu colapso estrutural — cenário que favorece a especulação imobiliária. Para o artista, o trabalho articula-se em torno da invisibilidade de vestígios e histórias não contadas, revelando o valor soterrado e esquecido nas ruínas urbanas.

Aídyne Martins apresenta a instalação Cartas ao Futuro Preto (2025). A obra remete a uma grande tenda ritualística, onde cartas contendo orações, dúvidas e desejos são depositadas pelo público. Esses escritos seguem simbolicamente para um oráculo que os encaminha a deuses do futuro. Organizadas em compartimentos, as mensagens formam um correio simbólico do porvir. A artista concebe a obra como um dispositivo interativo que convida à reflexão sobre a construção de um futuro negro mais afetuoso, justo e livre.
Reencantamento configura-se, assim, como um potente laboratório de reflexão sobre o papel humano enquanto agente social e ambiental. A exposição evidencia os impactos do uso indiscriminado dos recursos hídricos, arquitetônicos, urbanísticos, naturais e históricos — fundamentos indispensáveis à sustentação da vida na Terra.
Vá, veja a exposição, reencante-se e construa seu próprio pensamento crítico sobre esse tema urgente e inadiável: a sustentabilidade da vida.
Por Silvio Feitosa





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